A GUITARRA FLAMENCA E SUAS FACETAS

Quando falamos de guitarra flamenca, a primeira referência musical que nos vem a cabeça é Paco de Lucia, nome artístico de Francisco Gustavo Sánchez Gomes, nascido em 1.947 em Algeciras, sul da Espanha, em Andalucía, berço do flamenco. Falecido em 2014, deixou extenso legado à música. Graças a sua projeção internacional, de talento reconhecido desde os 11 anos de idade, Paco de Lucia elevou o instrumento chamado no Brasil de violão, a um patamar de altíssimo nível, influenciando o mundo inteiro, provocando a proliferação e projeção de artistas de altíssimo nível e alta performance. Depois de Paco, os violonistas flamencos, chamados de guitarristas flamencos na Espanha, nunca mais seriam vistos como músicos comuns, mas sim como extraordinários, devido a alta complexidade de execução e especialização que esta arte requer. O que poucos sabem ao iniciar seus estudos, é que dentro deste Universo existem três especializações possíveis, conhecidos como: guitarra concierto, guitarra para cante e guitarra para baile. Além, é claro, da especialização no ensino da mesma.

 O guitarrista de concierto é aquele que se dedica exclusivamente a sua carreira como solista. Para isso, precisa dedicar horas e horas de estudo diário tanto para o aperfeiçoamento e manutenção de sua técnica, quanto para a composição própria de suas músicas e produção de discos. Muitas vezes pode participar de concursos de guitarra flamenca, disputando prêmios, assim como realizar seus próprios shows, que podem ser acompanhados de outros músicos ou não. Com certeza é o trabalho mais solitário entre as três categorias, pois exige que o músico passe um tempo considerável em companhia apenas de sua guitarra. As técnicas específicas deste estilo possuem nome próprio em espanhol: razgueos, alzapuas, técnica de pulgar, tremolos, picados duros e picados al aire(punteo), devem ser executadas com limpeza, destreza, velocidade e precisão. Paco, que foi um maestro e gênio nesta área, se queixava que tocar o violão era muito difícil, mas ao mesmo tempo sua maior paixão. A agilidade com o instrumento e a capacidade do controle emocional e psicológico, que comprovam o domínio sobre o mesmo, aliados à criatividade, musicalidade e capacidade expressiva do artista, vão ser fundamentais para que este se destaque entre tantos outros que se dedicam ao mesmo ofício.

Já na guitarra para cante, os principais atributos serão outros. Acompanhar ao cante, no flamenco, significa tocar para o/a cantor/a, chamado de cantaor ou cantaora. Existem “salas de cante” na Espanha onde é possível sentar, tomar “uma copa”(uma bebida) e assistir a uma apresentação onde o guitarrista presente acompanha tanto a profissionais quanto amadores nesta arte. Para tanto, é necessário um profundo conhecimento dos estilos de cante, chamados de palos, assim como a capacidade de tocar em diversos tons, pois cada cantaor/ora terá sua preferência de tonalidade, assim como cada palo possui uma harmonização(quando colocamos os acordes na melodia cantada) específica, com regras muito rígidas e marcantes. Na maioria das vezes o guitarrista fará uso de um artefato chamado na Espanha de cejilla(no Brasil de capotraste), que se prende em uma das casas do braço do violão a fim de se adequar ao tom de quem canta. Em outros casos, o músico fará uma transposição de acordes, o que exige mais conhecimentos musicais. Os “toques” para cante podem variar muito em andamento, e exigem uma destreza do guitarrista para saber exatamente quando, como e onde deve tanto mudar de acordes, quanto subir ou baixar a velocidade da música, assim como saber quando arrematar(finalizar) corretamente a fim de não “atravessar” quem canta. Em resumo, o guitarrista tem como objetivo estabelecer uma diálogo coerente e rico com o cante, assim como ponderado, pois o destaque nessa arte se dá sempre a quem canta.

 Em uma apresentação de dança flamenca, é fundamental que tenhamos os 3 elementos que compõe esta manifestação artística: “cante, baile y toque”. Canto, dança e violão. A guitarra para baile vem a ser então uma síntese deste ofício, já que em diversos momentos o guitarrista tem a oportunidade de mostrar suas micro-composições através de falsetas(parte instrumental do baile, segundo o Método Coreológico Cylla Alonso), sua destreza e conhecimento dos palos acompanhando ao cante, e seu domínio rítmico da linguagem ao dialogar com o baile(a dança). Neste caso, o guitarrista precisa tanto estar com as devidas técnicas de “toque” em dia, quanto ter a capacidade de “ler” o que o bailaor ou bailaora estão comunicando através do corpo, assim como ser capaz de ouvir ao cante e acompanhar com os devidos acordes e o devido compasso. Deve conhecer os códigos de baile(chamadas, arremates , respiros, cierres) e as estruturas de baile possíveis para cada palo. Deve compreender as frases rítmicas dos pés, assim como saber trabalhar com estas frases em justaposição ou contraposição.  Mas deve acima de tudo, além de todo este conhecimento, ter a sensibilidade de atuar como mais um integrante da banda, e que tem como principal função fornecer um suporte sólido, porém maleável, a todos que estão atuando, servindo de referência a quem dança, que é quem realmente comanda a banda como um maestro, a quem canta e a quem faz as palmas e/ou toca o cajón. Esta sensibilidade, aliada ao conhecimento de seu ofício,  farão toda a diferença no final, para que se comprove a capacidade com que o músico acompanha e interpreta cada elemento deste quadro.

 E por fim, mas não menos importante, está o ofício de quem ensina esta arte. Ser um guitarrista habilidoso não torna ninguém um professor competente. È preciso método, visão, capacidade de empatia, muita psicologia e entender que cada um aprende em seu tempo. Respeitar as limitações e dificuldades dos alunos, porém sem subestimar suas capacidades, tratando de tirar sempre o melhor de cada um. Enxergar os talentos e facilidades daqueles que os têm, mas sem superestimar encurtando caminhos ou pulando etapas, pois mais a frente este aluno, por mais talento que tenha, notará a falta de uma base sólida não construída. Encarar cada um como receptáculo de conhecimentos, sem importar idade, sexo, etnia, talento ou finalidade com as aulas. Todos podem aprender.

 A guitarra flamenca é então este universo vasto de possibilidades e constantes desafios, em todas as áreas, em todos os tempos. E talvez seja isso mesmo o que a torna tão viva e apaixonante. O importante não é o fim, aonde vamos chegar com ela, mas sim o caminho a ser percorrido, com todas as dificuldades que surgem, mas também com todas as recompensas com as quais somos constantemente presenteados. Sempre há algo por descobrir nesta arte provocante e pulsante, que se manifesta de forma tão sublime ao som das cordas de um violão, nas mãos de um guitarrista flamenco que possui tanto formação quanto vocação.

SEVILLANAS NO FLAMENCO

POR GABRIEL SOTO

  Quando nos inserimos no universo do flamenco, compreendemos que esta arte não se aprende por músicas, mas sim por ritmos, chamados  de palos. Assim como na dança também não se aprende apenas por coreografias, mas sim por desenvolvimento do vocabulário rítmico e corporal. Sim, flamenco é um idioma, e como tal possui seus códigos de comunicação e improvisação, tanto do baile quanto dos músicos, cada um comunicando e se expressando através de seu instrumento. E eis que ao iniciar os estudos nos deparamos com um palo considerado básico, porém fundamental para começar a adquirir conhecimentos, proveniente de Sevilla, ao sul da Espanha,  chamado Sevillanas.

 Em uma rápida busca no Google, nos deparamos com a seguinte afirmação no Wikipédia: “Sevilhanas é uma música muito leve e alegre e não faz parte do Flamenco, apesar de poder ser confundidas com este.” Pois bem, de fato é um ritmo(e não uma música, como já vimos anteriormente) que costuma ser leve e alegre, porém suas melodias e harmonias foram “aflamencadas” no decorrer dos anos, e hoje em dia é fácil contrapor esta idéia de leveza com as gravações de artistas como Camarón de la Isla, José Mercé, Potito e El Pele, para ficar em alguns exemplos. As melodias flamencas ganham um contorno de sofrimento e dor nas vozes destes cantaores, e as letras expressam o mesmo.

 Agora vem a parte mais interessante: “…não faz parte do flamenco mas pode ser confundida com este”. Ora, será porquê o violão soa como uma guitarra flamenca ao se utilizar de técnicas flamencas como razgueos, picados e polegar? Ou será pelo som das palmas e do cajón, que marcam um ritmo ternário, muito presente na musicalidade flamenca?  Ou pela interpretação quando não alegre, carregada de dramaticidade  e melismas na voz de cantores/as(dedicados à canção espanhola e coplas) e cantaores/as (dedicados exclusivamente ao flamenco)? Ou finalmente, será então devido aos “marcajes”, “braceos”, movimentos das mãos, expressão corporal, com direito a sapateado na terceira sevilhana, dentre outros, na execução da dança?

    Há de fato uma discussão, inclusive dentro do próprio ambiente flamenco, se as Sevillanas são realmente um palo flamenco. No entanto, diante de todas as evidências apresentadas, resta alguma dúvida? Pelo Método Coreológico Flamenco, criado por Cylla Alonso, é possível identificar tanto no baile quanto na música  todos os códigos que fazem parte deste universo: chamadas, arremates, respiros(este na Sevillana é estrurural), subida e cierre. E na estrutura, encontramos frases musicais de base(toque caracterísitico do violão em cada palo), “salida de cante” e letra dividida em 3 partes, sendo a última um “estribillo”(refrão). Todos os termos mencionados, fazem parte do que chamamos de códigos e estrutura dentro do universo flamenco.

   Diante de tantas evidências, é inegável que ao bailar e tocar por Sevillanas, estamos fazendo flamenco. Sem esquecer que bailar flamenco não é apenas” bailar por sevillanas”, pois além desta temos uma gama enorme de opções de palos “bailáveis” e executados musicalmente que caracterizam e identificam o flamenco como uma manifestação artística muito ampla e complexa, com um riqueza artística considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2010.

    Dentre a ampla gama de estilos, a Sevilhana é provavelmente a melhor representante da expressão flamenca coletiva, onde várias pessoas podem dançar(duplas, trios, quartetos, não há limites), tocar e cantar ao mesmo tempo, pois possui estrutura fixa, com um tamanho determinado para iniciar e terminar. Além disso permite a incorporação de elementos como abanico(leque), mantón(chale) e castanholas. Acessível a todos os corpos e idades, permite a interação entre todos os participantes, além de fornecer, quando bem ensinada em sala de aula, uma base sólida, sendo uma porta de entrada ao flamenco muito rica e democrática. As Sevillanas não são portanto um estilo de dança e música solitárias, mas sim um ritmo que se apresenta como inclusivo e acessível a quem sempre desejou aprender e entender o flamenco e que ele vai muito além da mera execução de passos, notas musicais e vestimentas típicas como vemos em eventos como a “Feria de Sevilla”. Pois  a “flamencura” se desenvolve no corpo, na técnica, na expressão e no diálogo entre quem dança e quem toca. E viva as Sevillanas!

PALMAS FLAMENCAS

por Cylla Alonso

O flamenco é tão rebuscado e tão pertencente que as palmas, independente do seu papel no quadro (bailaor, guitarrista, percussionista ou cantor) fazem parte de um universo em comum e estão sempre presentes quando não se está atuando no seu devido instrumento. A grosso modo isso significa que todos os flamencos devem saber palmear.

As palmas são um elemento de acompanhamento utilizadas para dar o compasso para a guitarra, o cante ou o baile. Além do compasso, elas vão criando nuances e dando brilho àquilo que está sendo executado, podendo, inclusive, ser o único acompanhamento presente em muitos palos.

Embora palmear (fazer palmas flamencas) pareça muito fácil e simples, infelizmente não é, pois, sua execução depende, como sempre, da compreensão e domínio da linguagem fazendo com que este elemento seja muito pertencente, mas não muito democrático.

As palmas são um mundo particular dentro do universo flamenco.

O flamenco tem padrões rítmicos particulares inerentes à cada palo flamenco (estilo). Além disso, um único número flamenco dispõe de estruturas específicas cujo desconhecimento torna impossível a arte de palmear ao vivo.

As palmas simples sustentam o compasso, as frases rítmicas da palma dão “sabor” ao que está sendo cantado, tocado ou bailado e os jogos de palmas entre os palmeiros (aqueles que estão palmeando) criam vozes que se complementam e recriam na sua soma uma combinação única. A forma mais simples desta combinação são os tempos e contratempos, simples ou dobrados

Com um mínimo de dois timbres de palmas (característica de som), temos:

– Palmas sordas (palmas graves)

– Palmas vivas (palmas agudas)

Ambas trabalham muito com alterações de volume e estão submetidas à consciência dos acentos do compasso e suas variáveis de acordo com o que vai sendo pedido no diálogo flamenco. Em geral, as palmas vivas estão à serviço dos remates (fechamentos) e do sapateado dos pés em momentos diversos do baile.

Para acompanhar os palos mais dançados e tocados pelo mundo como as Bulerias, os Tangos e as Sevillanas é necessário aprender a tocar as palmas como um instrumento. Devido a esta demanda, hoje em dia estão disponíveis aulas, cursos e workshops que abordam e exploram especificamente este tema.

Uma palma bem tocada no flamenco é sinônimo de segurança. Nos shows e tablados flamencos é muito natural que os cantaores e os bailaores façam a palma nos números que se sucedem, porém, cada vez mais habitualmente, palmeros profissionais são contratados para exercer esta função durante um número ou espetáculo.

Na Casa em Si as palmas, (como elemento flamenco) está presente nas aulas, nos nossos workshops e na especialidade de musicalidade e ritmo. Siga a nossa programação e anime-se para vivenciar as palmas como instrumento.

CARLOS SAURA – O cineasta que presenteou o mundo com o flamenco

Vindo de uma família de artistas e apaixonado por fotografia desde a adolescencia, Carlos Saura é um nome muito importante e relevante no cinema espanhol. Para os flamencos e para os amantes desta arte o dia 10 de fevereiro de 2023 marca a partida do diretor, cineasta e roteirista que levou o flamenco ao mundo marcando uma geração.

Mesmo sabendo da importância do conjunto da sua obra, a sua contribuição para o flamenco é muito marcante e especial. Você já ouviu falar dele? Já viu algum dos filmes?

Dono de uma obra artística rica e repleta de estrelas flamencas, Carlos Saura nos deixa o seu amor pelo flamenco e o seu olhar para esta arte através de uma filmografia que atravessou continentes e perpetuou o flamenco.

“A dança, sobretudo o flamenco, tem algo mágico. Nenhuma dança no mundo é tão clara e evidente, principalmente nas mulheres: ela levanta as mãos e ali está, em seus dedos, o próprio céu, o esvoaçar das pombas. Da cintura para baixo é a terra”, afirmou ao jornal El País em setembro de 2020.

Na década de 80, Saura nos marca com a trilogia  flamenca: – BODAS DE SANGRE (1981), CARMEN (1983) E AMOR BRUJO (1986), nomeado ao Oscar de melhor Filme Estrangeiro e Prémio do Jurado no Festival de Cannes com Carmen.

Na década de 90 nos brinda com o filme SEVILLANAS (1991) que reflete a arte deste popular baile e suas mil e uma facetas, seguido do filme FLAMENCO (1995) que nos oferece sua perspectiva e estética ímpares trazendo  luzes, sombras e fotografia ao flamenco.

Em 2010 lança FLAMENCO FLAMENCO retornando com nuances do filme anterior para documentar a dança Flamenca e as mudanças ocorridas nesse período.

Antonio Gades, Cristina Hoyos, Camarón de la Isla, Paco de Lucia, entre outros tantos de arte indescritível se somam à sua obra (provavelmente a mais importante da nossa época) imortalizados nos filmes que geraram uma paixão do público pelo flamenco, graças à forma que Saura nos levava (ou nos trazia) até ele.

“Tive sorte. Sempre digo: fui escolhido porque fiz o que gostava de fazer, tive muita convivência social, economia suficiente para continuar vivendo e sete filhos. Não posso reclamar”, disse Saura ao El País em 2020.

Para quem desconhece estas obras ou não assistiu à todas, deixamos a lista em ordem cronológica e recomendamos que assistam os filmes e mergulhem em mais de 40 anos de história da arte flamenca com Carlos Saura.

  • 1981 – Bodas de Sangre;
  • 1983 – Carmen;
  • 1986 – El amor Brujo;
  • 1991 – Sevillanas;
  • 1995 – Flamenco;
  • 2010 – Flamenco Flamenco.

Apesar da tristeza por sua partida e sabendo que sua genialidade não irá nos surpreender mais no futuro, nossa função é divulgar sua obra e importância, hoje e no futuro, com o mais puro agradecimento dos flamencos pela sua arte.

Salve, Carlos Saura!

FLAMENCO: DESCOBRINDO SEU INSTRUMENTO INTERNO

“Cantar é essencial, tocar é secundário”.

      Frase dita por um aluno de violão, que descobriu um vasto universo musical ao começar a cantar os sons que ele produzia no instrumento. E com sons me refiro a melodia e ritmo. Ao encontrar dificuldades em executar um exercício de arpejo (quando as notas de um acorde são tocadas separadamente em combinações específicas), percebeu não só que tocar era mais fácil ao cantar as notas no tempo, como a memorização se tornava muito mais viável, ao invés de focar apenas no processo mecânico.

      Técnica é o estudo do processo físico e mecânico do movimento, incluindo conscientização, assimilação, reprodução e memorização. Ela é fundamental para que os sons que produzimos, seja no violão, cajón, palmas, cante ou na dança flamenca (incluindo sapateado e corpo) saiam limpos e precisos. Fundamental também para que não nos machuquemos ao executar de maneira incorreta, e possamos render mais com menos esforço. Mas se esta técnica vier acompanhada de musicalização, ela com certeza será mais eficiente e de fácil absorção. 

     No flamenco, o estudante de dança está muito habituado a “pegar passos” e memorizar sequências coreográficas. A coreografia acaba sendo o foco principal. O esquecimento de frases de sapateados é muito comum. E por quê isso acontece? Ao fixarmos a nossa atenção na quantidade de vezes que o passo é feito, ou apenas na mecânica que está sendo usada, nos esquecemos do principal: como deve soar. Qual o som que desejamos produzir. A verdade é que se esquecermos da mecânica, mas lembrarmos do som, e claro, soubermos como encaixar esta sonoridade no compasso, tudo dá certo no final, porque um pé fora do tempo vai destoar muito mais do que um golpe no lugar de uma planta.

  Cantar o sapateado então é vital, e não vem dissociado da mecanização do mesmo. Ao contrário, contribui e muito para uma execução precisa e memorização. Quando cantamos uma sequência de pés, nos apropriamos dela, e passamos a fazer parte da música que acompanha de fato. A apropriação e domínio rítmico vem então do ato de cantar, e não apenas de ouvir e memorizar mecânicas. Nesse processo o conhecimento adquirido de forma consciente ajuda a reconhecer esses sons e nomeá-los. Ao dar nome e sobrenome ao que fazemos, nos apropriamos por completo da linguagem. E o flamenco é uma linguagem, que quando bem falada, será bem compreendida e bem recebida em qualquer canto do mundo.

   Tercina que entra na segunda nota antes do tempo, compassos binários que dialogam com ternários e um binário de ligação no final da frase musical de base de Seguiriyas, melodias ascendentes e descendentes que indicam o caminho do cante, falsetas e bases de violão, palmas dobradas, frases de arremate…. a linguagem flamenca parte de uma base de conhecimentos, e cada etapa de aprendizado é vital para que possamos sempre seguir crescendo e não estacionar ou regredir. A musicalidade é requisito fundamental para expressarmos mais e melhor. Não se trata de mais ou menos talento, mas sim de mais ou menos conhecimentos adquiridos, mais teoria aliada à pratica, mais cantar e cantarolar.

   Então, cantarolar é preciso! Mais do que decorar letras, cantar as melodias, seja de uma falseta, de uma letra de Alegrias, de um estribillo de Fandangos de Huelva, não importa, cantarole tudo, e sempre com a palma trabalhando junto marcando o compasso. Cada passo aprendido está dentro de um contexto rítmico e melódico. Cante as divisões rítmicas, as escobillas, chamadas, arremates. Se o flamenco é uma linguagem, não basta ouvir, é preciso falar. Ouça mas também fale. E falar flamenco é cantar tudo o que fazemos. O conceito de cantar não é exclusividade do cante. É de todos. E ao contrário do que se imagina, vem antes da execução de um sapateado, de uma falseta, de um cante, de um toque do cajón ou das palmas. É cantando que nos apropriamos de tudo o que fazemos no flamenco. Fazer flamenco é ouvir, compreender e responder. Vamos responder com propriedade, vamos cantar!

Gabriel Soto

CUEVA FLAMENCA SP – Casa em Si

A Cueva é tão especial para todos os “residentes” da Casa em Si que mereceu um artigo breve sobre a sua história (que só está começando) e algumas atualizações sobre nossos eventos culturais.

Que insana a saudade da conversa entre um acorde, uma voz e um corpo no meio da tarde primaveril que culmina no aplauso caloroso de quem acompanhou essa conversa.

Um espaço de saraus, lançamento de livro, aulas e workshops de música, dança e coreologia, sempre a nossa espera para acolher aquele momento inigualável e irrepetível com nossos amigos e com o público….

Quantos momentos mágicos na vida de quem faz arte, de quem vive de arte e de quem prestigia a arte.

Idealização da Cueva

A primeira Cueva Flamenca está na Casa em Si em São Paulo, na Vila Mariana, num espaço artístico que remonta as cuevas espanholas tanto na decoração, quanto no caráter intimista e no diálogo flamenco. Uma experiência única que te leva à uma viagem inesquecível à Espanha, sem sair de São Paulo.

Ser artista é ter uma visão única, somada a capacidade de criar algo mágico sobre algo simples a partir desta visão tornando-a real.

A idéia da Cueva foi gerada pela visão inicial de cinco pessoas em 2018, profissionais de diferentes áreas unidos pela arte e, principalmente, pelo flamenco, mas ela realmente nasceu com o empenho dos seus responsáveis e ganhou corpo, cara, aconchego, flamencura e poesia pelas mãos, talento e empenho de Angela Perez em 2019.  

Cada pequeno detalhe tem sua história e cada elemento que ali está foi uma grande conquista cuja recompensa são os relatos e o sorriso de espanto de cada pessoa que entra neste espaço.

Acreditando no potencial de um espaço flamenco multicultural de música e dança, dois professores, artistas e microempresários, Gabriel e Cylla, se agarraram na arte, no trabalho e nas parcerias e hoje a Casa em Si é uma realidade. A Cueva é uma parte desta realidade.

Sonho interrompido

Muitas pessoas têm perguntado sobre os eventos na Cueva e para nós é sempre muito triste dizer que não pudemos ainda abri-la para os residentes, para os flamencos e principalmente, realizar nosso objetivo de democratizar o flamenco e o ambiente único da Cueva para o público em geral.

Como todos que viveram as circunstâncias do Covid 19 sabem, em 2020 veio a pandemia e com ela muitas lutas simultâneas. Para nós, a maior das lutas foi para que a Casa em Si permanecesse aberta. É sempre tão importante quanto necessário dizer que jamais conseguiríamos isto sozinhos. Se a Casa em Si permanece, assim como seus sonhos e objetivos, é porque foi abraçada pelo empenho, compromisso, investimento e trabalho árduo de muitas pessoas. Muitos espaços não tiveram a mesma sorte.

… e a arte, pelas mãos do artista, sempre encontra um caminho.

Apesar de quase 1 ano de fechamento e muito empenho até o momento atual, devido ao aumento dos números de contágio da Covid e de acordo com nossos protocolos de segurança não pudemos realizar “ainda” os eventos na Cueva.

A Cueva é nossa: do público, dos residentes, de todos os artistas flamencos, dos profissionais de arte e todos os alunos flamencos que queiram experienciar este ambiente cultural.

Mais do que um artigo, esta é uma carta para dizer que seguimos acreditando, criando e buscando formas de viabilizar muitos eventos culturais que estão apenas aguardando a possibilidade de nos reunirmos. Com a situação pandêmica um pouco mais estabilizada e um menor número de contágios, desejamos abrir as portas em breve, pouco a pouco, mesmo que com a capacidade reduzida e mascarados.

Por hoje, convido você a sonhar conosco com essa abertura da Cueva Flamenca. Faremos de tudo para que o sonho se torne realidade rapidamente. Por isso prepare-se, pois quando o momento chegar vai ser uma festa cada vez que nos encontrarmos.

Cylla Alonso

FLAMENCO FUSION

Fusão é o efeito ou ato de fundir, unir ou mistura duas ou mais coisas distintas, onde características de cada uma se interceptem formando algo único como resultado.

“Acho que a música há muitos anos vem quebrando fronteiras e aproximando pessoas de diferentes culturas. (El País)

Fernando Trueba (produtor do disco Lágrimas negras, junto a Javier Limón, de Diego Cigala y Bebo Valdés)

Embora “flamenco fusion” não seja especificamente um ambiente flamenco, é uma expressão que traz um conceito determinado ao ser utilizado, e que difere do flamenco purista, coexistindo como manifestação flamenca.

Para elaborar o Flamenco fusion é necessário entender o chamado “Novo Flamenco” cuja história começa nos anos 70, muito antes da expansão causada pela internet no ano 2000, com a influência de diversos estilos musicais da Europa e dos Estados Unidos no flamenco, iniciando assim os primeiros processos que levariam o flamenco a ser posteriormente chamado de “novo flamenco”.

O produtor José Antonio Pulpón dá o pontapé inicial a este processo convidando o  cantor flamenco Agujetas para colaborar com o grupo de rock andaluz “Smash” dando início a uma fusão inusitada e, principalmente, propondo a união artística entre Paco de Lucía e Camarón de la Isla, com quem gravou nove álbuns entre 1969 e 1977, e que por sua vez deram um impulso ao flamenco que rompeu com o conservadorismo e trouxe o flamenco para outro patamar.

Os imortais Camarón e Paco de Lucia foram artistas únicos que, pela arte, ousadia e escolhas artísticas, reconfiguraram o cante e a guitarra flamenca, respectivamente. 

O primeiro disco de Camarón sem Paco de Lucía, La leyenda del tiempo, lançado em 1979, é até hoje considerado um marco do flamenco, aproximando-o de gêneros como o rock e o jazz.

Este novo flamenco também permitiu que estes músicos se encontrassem e que dentro de duas disciplinas criassem algo novo e maravilhoso. Foi o que aconteceu no encontro dos violões de Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin, cujo resultado fascinante rodou o mundo através dos álbuns: Friday Night in San Francisco (1981), Passion, Grace and Fire (1983), The Guitar Trio (1996).

Paco de Lucía, por sua vez, também inovou e introduziu novos instrumentos, como por exemplo, o cajón peruano, que pelas mãos do percussionista baiano, Rubem Dantas, se firma como elemento do flamenco e posteriormente do mundo da música.

O Grammy Latino de Melhor Álbum de Flamenco foi um prêmio concedido pelo Latin Grammy Awards por álbuns de flamenco de qualidade. O primeiro prêmio foi atribuído a Camarón e Tomatito, no ano 2000 por Paris 1987. Paco de Lucía ganhou postumamente este prêmio e “Álbum do Ano” com seu último álbum Canción Andaluza em 2014, tornando-se o primeiro artista flamenco e álbum a fazê-lo.

Com o novo flamenco despontando e as inúmeras possibilidades de caminhos que ele abriu também para os encontros que geraram as fusões, seria impossível não citar como expoente histórico do flamenco fusion o cantaor Enrique Morente, que foi do purismo à miscigenação com o rock no álbum “Omega” com a banda Lagartixa Nick, lançado em 1996 pela gravadora El Europeo Music e relançado em 2008.

Sob influência dos desbravadores do novo flamenco, Paco de Lucia e Camarón, e as tendências de fusão apresentadas por Enrique Morente, Lebrijano, entre outros, surge uma nova geração de artistas flamencos que renovam o panorama musical espanhol, na época da Movida Madrileña, já nos anos 80.

Artistas muito diferentes despontavam neste cenário da música popular espanhola da época e o selo Novos Medios, considerado como “a Motown Flamenca” e conhecido por apoiar a cena independente espanhola durante os anos 80/90 lançando músicas de algumas das bandas mais emblemáticas. Este selo lançou a coleção Los Jovenes Flamencos, em três volumes dando cara, cor e volume ao que começa efetivamente a ser conhecido por Novo flamenco apresentando uma rama de flamenco fusion com ícones artísticos como a banda Pata Negra, Ketama e o cantor/compositor Ray Heredia.

Talvez auxiliado pelas fusões musicais, mas certamente devido a este novo flamenco, foi possível atingir um público maior e mais jovem, dentro e fora da Espanha.

A cantora Concha Buika, recebeu duas indicações para o  Grammy Latino de 2008, como “Álbum do Ano” e “Melhor Produção” por seu quarto álbum, Niña de Fuego.

Nos dias de hoje, Rosalía, nome indiscutível da cena musical internacional, é o ápice da representatividade das fusões flamencas, fazendo questão de inserí-lo como sua marca registrada em sua discografia.

Com as fusões musicais também nasceram as mais diversificadas fusões na dança que, por sua vez, foram incorporando técnicas de outras danças ao flamenco propriamente dito como, por exemplo, a dança contemporânea.

Numa linha mais tênue, e provavelmente fazendo parte essencialmente do flamenco fusion musical como linha de expressão, a dança flamenca muitas vezes se adequa a músicas fusionadas sem utilizar-se necessariamente das técnicas corporais do outro estilo e nestes casos, apesar de ser considerada fusion, apresenta aspectos puramente flamencos.

Basta ver vídeos antigos e atuais, ou até mesmo ouvir os áudios fazendo uma comparação, para perceber claramente o quanto o flamenco se desenvolveu e se rebuscou.

Como o flamenco certamente seguirá crescendo, os flamencos puristas, modernos e os artistas das fusões seguirão nos presenteando com novos trabalhos, que nos surpreenderão. Aguardamos ansiosos!

JUERGA FLAMENCA

A tradução da palavra “juerga” para o português é FARRA e, sendo uma palavra bastante comum na Espanha, uma juerga é aquela noitada com os amigos, a famosa balada.  

Quando usamos a expressão “juerga flamenca” falamos de um encontro onde há canto, música e dança, ou seja, uma “farra flamenca” que começa e não tem hora para acabar.

Por característica, elas podem acontecer em qualquer lugar, num bar, na rua, numa praça ou na casa de alguém e, como ambiente flamenco, acontece de forma descontraída e espontânea.

As juergas são comuns entre os flamencos e nas famílias flamencas, quando se juntam pessoas que cantam, dançam e toquem a guitarra (violão) mesmo que sejam amadores.

É importante frisar novamente que, pela sua natureza, as juergas flamencas não são apresentações formais, não tem figurinos, nem uma estrutura pré-estabelecida como vimos anteriormente em outros ambientes. Nestes encontros uma essencial característica do flamenco impera e se destaca: – a improvisação através da comunicação entre a dança, a música e as palmas.

Os flamencos, além de seus instrumentos, também tocam as palmas, elemento de extrema importância nesta linguagem, que se comunica diretamente com o baile e a música, e que tem um papel fundamental de assegurar o ritmo para que os outros elementos possam ficar mais livres. Um bom palmero dá brilho, volume e realce ao que acontece na dança e na música.

Por reunir profissionais, amadores e aficionados (amantes do flamenco), este ambiente ganha vida com palos mais específicos e menos jondos (profundos) nos quais há mais rotatividade na dança e nos cantes, como, por exemplo, as bulerias e os tangos que são palos (estilos) com características mais festeiras. Como não há roteiro, cada um entra e sai quando sente o ímpeto e o bailaor faz uma espécie de micro baile conhecidos na linguagem flamenca como “patada”.

Embora este ambiente flamenco seja mais democrático e informal, para entrar nela, em geral, dependemos de um convite ou uma abertura para fazer parte. Fazendo um paralelo com uma roda de samba brasileira, não chegamos nela e saímos tocando cavaco como se não houvesse amanhã, não é mesmo? No samba, a dança é periférica e acontece ao redor da roda, porém no flamenco, diferentemente de samba, os dançarinos fazem parte da música e, portanto, estão dentro da roda tocando palmas.

As juergas podem ser mais difíceis de serem presenciadas por não serem um show e por não dependerem de público para que aconteçam. Não é possível comprar um ingresso para ver uma juerga já que estas acontecem espontaneamente e não tem lugar ou espaço definido.

É possível que o ambiente das juergas seja o mais próximo da natureza das artes urbanas dentro da linguagem flamenca mas é necessário ter a sorte de estar na hora certa, no lugar certo.

FLAMENCO URBANO

Novos ambientes com paisagens peculiares vão surgindo no horizonte.

Se antigamente havia uma preocupação em adequar os espaços para que eles tivessem uma estética mais flamenca (fundo com mantóns, por exemplo), hoje em dia se assume que o flamenco faz parte de uma cultura viva e em desenvolvimento e pode acontecer em qualquer espaço, sendo a arte do artista o elemento principal e pitoresco que se diferencia da paisagem.

Partindo da reflexão sobre o conceito de arte urbana, o Flamenco como linguagem já apresenta características da arte urbana em seu caráter espontâneo. Isso lhe permite acontecer em qualquer lugar com pessoas que conheçam a linguagem, podendo estar ou não vinculada ao seu entorno.

O flamenco ganha vida como uma arte urbana quando um pequeno grupo se reúne nas praças, no terraço do bar ou nas calçadas para tocar, cantar ou dançar ou quando pequenos tablados móveis são levados à determinados pontos da cidade e os artistas flamencos se apresentam nas ruas.

Diferenciando a reunião da apresentação entram as preocupações com o entorno, a estética flamenca e a colaboração financeira do público. Nas reuniões improvisadas a roupa é cotidiana, não há nenhum combinado prévio e não há intenção de apresentação. Isso quer dizer que não há preocupação com roteiro, duração ou figurino, nem há necessidade de alcançar um público.

Já as apresentações de rua têm a preocupação de chamar a atenção do público, tem começo, meio e fim, apresentam uma estética mais característica e recolhem doações no final. Vale ressaltar que as apresentações de rua estão sujeitas a fiscalização e muitas vezes são interrompidas por serem ilegais.

Um ponto importante a ser compreendido sobre o Flamenco Urbano é que ninguém anda pelas ruas e decide ver o flamenco acontecendo na esquina por onde passa. Como dito antes, o flamenco acontece num encontro espontâneo ou é levado até o público pelo artista. Nas artes urbanas você não vai ao encontro da arte. Você sai de casa e, quando nem imagina, é surpreendido por ela.

Na atualidade, podemos encontrar diversos materiais que utilizam a expressão Flamenco Urbano como termo, apresentando certas nuances trazidas das ruas para o cenário através de figurinos casuais e cotidianos utilizados em montagens coreográficas flamencas. Desta forma, automaticamente há uma sugestão de um flamenco mais moderno e atual através do seu visual. Porém, como diria o ditado espanhol: – Ojo, que la vista engaña” (olho, que a vista engana). Em muitos casos o figurino casual é apenas o mesmo flamenco, como se fosse o flamenco com vestido “de lunares” (de bolas) mas com uma roupagem diferente.

Mais do que outra estética, há outros casos em que a roupa cotidiana (ou diferenciada do tradicional) é conceitual e condizente com a modernidade e atualidade da dança flamenca como é o caso da obra que nos apresenta Rocio Molina no filme Flamenco Flamenco – de Carlos Saura.

Rocio Molina no filme Flamenco Flamenco de Carlos Saura

Com as redes sociais e os telefones celulares, temos cada vez mais fotografias e vídeos registrando os momentos espontâneos e as apresentações flamencas pelas ruas como arte urbana nos dando uma dimensão mais realista daquilo que acontece em várias partes do mundo, dando mais visibilidade à arte e aos artistas que levam suas expressões até o público.

Boa parte dos materiais que vemos nas pesquisas sobre Flamenco Urbano são musicais e trazem  uma interação entre o flamenco e outros estilos musicais que o distanciam do conceito geral de arte urbana por definição. Porém, há outra expressão (e com ela um determinado conceito) chamada “flamenco fusion”, que surgiu na década de 80, e que aparece em diversos contextos conectado ao conceito de Flamenco Urbano, relacionado aos trabalhos primeiramente musicais que se tornaram muito populares – desenvolvidos por artistas que dedicaram seu interesse em estabelecer ligações e relações entre o flamenco e outros estilos de música, e que hoje também é uma expressão e conceito aplicado a fusão da dança flamenca com outros estilos de dança.

Em qualquer ambiente flamenco esta arte se faz a partir do encontro, seja o encontro consigo, com a dança, com a música, com os artistas ou com o público.

Nas ruas, quando essa arte te encontra, ela te encanta e transforma (tanto o artista, como o passageiro) porque como arte viva, por sua natureza, tão efêmera quanto um sonho. em um instante será apenas uma memória.

Cylla Alonso

ARTE URBANA

por Cylla Alonso

Para falar sobre a expressão flamenco urbano, nosso próximo artigo da série AMBIENTES FLAMENCOS, é necessário falar primeiramente sobre a arte urbana.

  • A arte, em si, é uma manifestação universal do ser humano exposta através de uma atividade artística, temporal ou atemporal, que expressa um conceito relativo a uma idéia, sociedade, época, costumes ou determinada cultura.
  • Urbano é tudo aquilo que pertence à cidade, que tem aparência de cidade ou a ela se refere.

Como conceito, a arte urbana, também conhecida como arte de rua, engloba diversas expressões artísticas (como a dança, a música, a poesia e a pintura) que acontecem e interagem com um espaço público e cuja produção frequentemente desafia as estruturas legais, estando frequentemente relacionado a subculturas ou contraculturas dos mais diversos tipos.

O termo Arte de Rua, street art, em inglês, surgiu nos Estados Unidos, na década de 70, caracterizando artes efêmeras que aconteciam na cidade, sujeitas ao tempo, as pessoas, à ilegalidade e às dinâmicas imprevisíveis da cidade.

Como um movimento underground – que significa subterrâneo, em português, sendo um termo usado para designar uma cultura que foge dos padrões validados pela sociedade em geral ou se refere um ambiente com uma cultura diferente, que tem sua própria moda e geralmente não está na mídia – a arte de rua foi gradativamente se constituindo como forma do fazer artístico, abrangendo várias modalidades, principalmente de grafismos .

Termo contemporâneo para um conceito antigo

Apesar da modernidade que possa trazer a expressão nos dias de hoje, o conceito da arte que ocorre na rua, historicamente existe desde os tempos mais antigos. Rapsodo era o Poeta popular, ou cantor, que ia de cidade em cidade recitando poemas épicos, cujo canto parece sintetizar os acentos mais sensíveis a seu povo. A arte alcançava as ruas desde a Grécia pré-socrática em que os aedos homéricos (cantores) transmitiam os seus versos e as suas músicas pelas ruas. 

Arte Urbana x Arte Pública.

Importantíssimo ressaltar que a arte urbana não é igual a arte pública.

Embora ambas utilizem os espaços localizados na cidade, diferem principalmente na legalidade e na estrutura. A arte urbana é ilegal e, portanto, está sujeita a ser removida de um momento para o outro tornando-se efêmera. Por outro lado, a arte pública é legalizada, faz parte dos planos do Estado, é contratada e recebe manutenção para seu planejamento, execução e distribuição.

Flamenco na Arte urbana

Partindo da reflexão sobre o conceito de arte urbana, o Flamenco como linguagem já apresenta características da arte urbana em seu caráter espontâneo. Isso lhe permite acontecer em qualquer lugar, na paisagem da cidade, com pessoas que conheçam a linguagem, podendo estar ou não vinculada ao seu entorno.

Saiba mais no artigo: Flamenco Urbano