SEVILLANAS NO FLAMENCO

POR GABRIEL SOTO

  Quando nos inserimos no universo do flamenco, compreendemos que esta arte não se aprende por músicas, mas sim por ritmos, chamados  de palos. Assim como na dança também não se aprende apenas por coreografias, mas sim por desenvolvimento do vocabulário rítmico e corporal. Sim, flamenco é um idioma, e como tal possui seus códigos de comunicação e improvisação, tanto do baile quanto dos músicos, cada um comunicando e se expressando através de seu instrumento. E eis que ao iniciar os estudos nos deparamos com um palo considerado básico, porém fundamental para começar a adquirir conhecimentos, proveniente de Sevilla, ao sul da Espanha,  chamado Sevillanas.

 Em uma rápida busca no Google, nos deparamos com a seguinte afirmação no Wikipédia: “Sevilhanas é uma música muito leve e alegre e não faz parte do Flamenco, apesar de poder ser confundidas com este.” Pois bem, de fato é um ritmo(e não uma música, como já vimos anteriormente) que costuma ser leve e alegre, porém suas melodias e harmonias foram “aflamencadas” no decorrer dos anos, e hoje em dia é fácil contrapor esta idéia de leveza com as gravações de artistas como Camarón de la Isla, José Mercé, Potito e El Pele, para ficar em alguns exemplos. As melodias flamencas ganham um contorno de sofrimento e dor nas vozes destes cantaores, e as letras expressam o mesmo.

 Agora vem a parte mais interessante: “…não faz parte do flamenco mas pode ser confundida com este”. Ora, será porquê o violão soa como uma guitarra flamenca ao se utilizar de técnicas flamencas como razgueos, picados e polegar? Ou será pelo som das palmas e do cajón, que marcam um ritmo ternário, muito presente na musicalidade flamenca?  Ou pela interpretação quando não alegre, carregada de dramaticidade  e melismas na voz de cantores/as(dedicados à canção espanhola e coplas) e cantaores/as (dedicados exclusivamente ao flamenco)? Ou finalmente, será então devido aos “marcajes”, “braceos”, movimentos das mãos, expressão corporal, com direito a sapateado na terceira sevilhana, dentre outros, na execução da dança?

    Há de fato uma discussão, inclusive dentro do próprio ambiente flamenco, se as Sevillanas são realmente um palo flamenco. No entanto, diante de todas as evidências apresentadas, resta alguma dúvida? Pelo Método Coreológico Flamenco, criado por Cylla Alonso, é possível identificar tanto no baile quanto na música  todos os códigos que fazem parte deste universo: chamadas, arremates, respiros(este na Sevillana é estrurural), subida e cierre. E na estrutura, encontramos frases musicais de base(toque caracterísitico do violão em cada palo), “salida de cante” e letra dividida em 3 partes, sendo a última um “estribillo”(refrão). Todos os termos mencionados, fazem parte do que chamamos de códigos e estrutura dentro do universo flamenco.

   Diante de tantas evidências, é inegável que ao bailar e tocar por Sevillanas, estamos fazendo flamenco. Sem esquecer que bailar flamenco não é apenas” bailar por sevillanas”, pois além desta temos uma gama enorme de opções de palos “bailáveis” e executados musicalmente que caracterizam e identificam o flamenco como uma manifestação artística muito ampla e complexa, com um riqueza artística considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2010.

    Dentre a ampla gama de estilos, a Sevilhana é provavelmente a melhor representante da expressão flamenca coletiva, onde várias pessoas podem dançar(duplas, trios, quartetos, não há limites), tocar e cantar ao mesmo tempo, pois possui estrutura fixa, com um tamanho determinado para iniciar e terminar. Além disso permite a incorporação de elementos como abanico(leque), mantón(chale) e castanholas. Acessível a todos os corpos e idades, permite a interação entre todos os participantes, além de fornecer, quando bem ensinada em sala de aula, uma base sólida, sendo uma porta de entrada ao flamenco muito rica e democrática. As Sevillanas não são portanto um estilo de dança e música solitárias, mas sim um ritmo que se apresenta como inclusivo e acessível a quem sempre desejou aprender e entender o flamenco e que ele vai muito além da mera execução de passos, notas musicais e vestimentas típicas como vemos em eventos como a “Feria de Sevilla”. Pois  a “flamencura” se desenvolve no corpo, na técnica, na expressão e no diálogo entre quem dança e quem toca. E viva as Sevillanas!

PALMAS FLAMENCAS

por Cylla Alonso

O flamenco é tão rebuscado e tão pertencente que as palmas, independente do seu papel no quadro (bailaor, guitarrista, percussionista ou cantor) fazem parte de um universo em comum e estão sempre presentes quando não se está atuando no seu devido instrumento. A grosso modo isso significa que todos os flamencos devem saber palmear.

As palmas são um elemento de acompanhamento utilizadas para dar o compasso para a guitarra, o cante ou o baile. Além do compasso, elas vão criando nuances e dando brilho àquilo que está sendo executado, podendo, inclusive, ser o único acompanhamento presente em muitos palos.

Embora palmear (fazer palmas flamencas) pareça muito fácil e simples, infelizmente não é, pois, sua execução depende, como sempre, da compreensão e domínio da linguagem fazendo com que este elemento seja muito pertencente, mas não muito democrático.

As palmas são um mundo particular dentro do universo flamenco.

O flamenco tem padrões rítmicos particulares inerentes à cada palo flamenco (estilo). Além disso, um único número flamenco dispõe de estruturas específicas cujo desconhecimento torna impossível a arte de palmear ao vivo.

As palmas simples sustentam o compasso, as frases rítmicas da palma dão “sabor” ao que está sendo cantado, tocado ou bailado e os jogos de palmas entre os palmeiros (aqueles que estão palmeando) criam vozes que se complementam e recriam na sua soma uma combinação única. A forma mais simples desta combinação são os tempos e contratempos, simples ou dobrados

Com um mínimo de dois timbres de palmas (característica de som), temos:

– Palmas sordas (palmas graves)

– Palmas vivas (palmas agudas)

Ambas trabalham muito com alterações de volume e estão submetidas à consciência dos acentos do compasso e suas variáveis de acordo com o que vai sendo pedido no diálogo flamenco. Em geral, as palmas vivas estão à serviço dos remates (fechamentos) e do sapateado dos pés em momentos diversos do baile.

Para acompanhar os palos mais dançados e tocados pelo mundo como as Bulerias, os Tangos e as Sevillanas é necessário aprender a tocar as palmas como um instrumento. Devido a esta demanda, hoje em dia estão disponíveis aulas, cursos e workshops que abordam e exploram especificamente este tema.

Uma palma bem tocada no flamenco é sinônimo de segurança. Nos shows e tablados flamencos é muito natural que os cantaores e os bailaores façam a palma nos números que se sucedem, porém, cada vez mais habitualmente, palmeros profissionais são contratados para exercer esta função durante um número ou espetáculo.

Na Casa em Si as palmas, (como elemento flamenco) está presente nas aulas, nos nossos workshops e na especialidade de musicalidade e ritmo. Siga a nossa programação e anime-se para vivenciar as palmas como instrumento.

Show Buttons
Hide Buttons