Na definição do dicionário, a palavra cueva é traduzida ao português como caverna ou gruta.
Este tipo de local, como o nome sugere, é uma espécie de escavação subterrânea, muito comuns no Sul da Espanha, que primeiramente foram utilizados como proteção contra o mal tempo antes de se tornarem refúgios durante as perseguições políticas e religiosas.
As cuevas se tornaram casas familiares e algumas delas (as que traziam em seu núcleo a cultura flamenca), se tornaram também um local de apresentações onde era possível ver o flamenco em seu seio, com artistas da mesma família, tornando a experiência bastante específica e intimista. À estas cuevas denominamos cuevas flamencas.
MUSEO DE LAS CUEVAS DE SACROMONTE
Com o estabelecimento das cuevas flamencas como um ponto de referência artístico onde os shows de flamenco acontecem, estes espaços passaram a atrair turistas de todas as partes do mundo.
Na atualidade, ainda que possamos encontrar algumas cuevas tradicionais em Andalucia, centradas na arte de mesmo núcleo familiar, a maioria delas tem um quadro de artistas fixos e recebe outros artistas flamencos, semelhante aos tablados.
As cuevas, como os tablados, podem estar associadas a uma experiência gastronômica, porém guardam em si um ambiente ainda mais próximo ao público pelo “desenho artístico” particular.
Flamenco mais próximo do público
Ao invés da relação entre palco e platéia, que vimos anteriormente nos ambientes flamencos da nossa série aqui no site da Casa em Si nos espetáculos de teatro e tablados, as cuevas nos oferecem o baile flamenco na área central do espaço. Isso quer dizer que os artistas estão no meio do público e sem uma frente definida.
CUEVA LOS TARANTOS
De certa forma, o ambiente que se estabelece é mais próximo das juergas, onde não há divisão público/plateia. Há público por todos os lados pois as cadeiras estão ao redor de onde a arte acontece. O bailaor ou bailaora dançam entre as pessoas numa construção mais “circular” e os músicos costumam ficar na mesma linha do público em cadeiras marcadas que possibilitam a interação entre eles e também com o baile.
Estilo de show flamenco
Enquanto estilo de show, é semelhante aos shows de tablado quanto a ausência de ensaio e os números solo de cada um dos bailarinos.
Como a dança flamenca possui comunicação ao vivo, esta “conversa” acontece da mesma forma em que nos comunicamos em um determinado idioma. O resultado depende da fluência de todos neste idioma. A estrutura geral do baile, os códigos de baile (determinados movimentos não-verbais que acontecem em lugares pré-determinados, inerentes à comunicação do corpo com a música), os alongamentos do cante, as rodas de acordes e outras ferramentas do flamenco, além do vocabulário, que permitem aos integrantes estabelecer um diálogo ímpar e por este motivo, mesmo que virmos o mesmo show, ele será diferente.
Obedecendo a linguagem flamenca os artistas marcam verbalmente a estrutura geral do seu baile (quantidade de letras e ordem do baile) com os músicos e se encontram no cenário.
São nestes momentos de diálogo que o flamenco se ilumina com momentos de autêntico improviso, sensibilidade e troca entre os artistas. O inesperado surge, o encontro entre a música e o baile vibra, e a naturalidade da arte faz tudo parecer fácil.
cylla alonso
Em São Paulo, a primeira Cueva Flamenca está na Casa em Si, num espaço artístico que remonta as cuevas espanholas tanto na decoração, quanto no caráter intimista e no diálogo flamenco. Fazer aulas, assistir um sarau, participar de um evento ou assistir apresentações neste ambiente é uma experiência única que te leva à uma viagem inesquecível à Espanha, sem sair de São Paulo.
O termo “Tablao” se refere, primeiramente, ao lugar onde os shows flamencos acontecem em toda a Espanha, substituindo os antigos Cafés Cantantes durante os anos 60. Relacionado aos espaços onde o flamenco se desenvolve, o ambiente dos tablaos é um dos mais importantes e comuns, tendo muitos diferenciais quando comparado ao ambiente dos teatros.
Tablao em português seria traduzido como Tablado, que no dicionário significa uma estrutura de madeira elevada do chão, geralmente utilizada para algo público (como apresentações artísticas, bailes, etc), mas quando nos referimos ao tablado flamenco, nos referimos mais especificamente à um formato de show e uma forma de baile (que veremos à seguir) feitos em um ambiente bem específico.
O primeiro ponto importante a conhecer sobre este ambiente é que ele costuma se relacionar diretamente com a culinária espanhola. Na Espanha, a maioria dos tablados recebe turistas de todas as partes do mundo, oferecendo uma experiência cultural e gastronômica típica, através do conjunto criado pela dança e música flamenca, as “tapas”, as “copas” e os jantares. As “tapas” espanholas são aperitivos (petiscos) e as “copas” são os drinks.
Há tablaos flamencos em várias partes do mundo como ambientes específicos dedicados ao flamenco, mas é muito comum encontrar certos restaurantes e bares que acomodam seu espaço com tablado de madeira, adequam o seu menu, fazem um cenário reservado e colocam cadeiras especialmente para que as apresentações de flamenco aconteçam.
Possivelmente, a diferença entre um estabelecimento que leva o nome de Tablao Flamenco e um bar ou restaurante que recebem a arte flamenca, é o protagonismo da arte. Nos tablaos, os garçons trazem seus pedidos antes e depois do show começar e dão prioridade para que o show seja visto e para que os artistas não sejam interrompidos. Nos bares e restaurantes, em geral, a circulação de pessoas e o serviço também acontecem durante a apresentação.
Contando com a recorrência de shows, na Espanha, você pode ir a um tablao semanalmente e ali vai ver um artista diferente ou você pode acompanhar seu bailaor preferido em diferentes tablaos.
Este ambiente flamenco reúne músicos e bailarinos profissionais e costuma ter rotatividade dos convidados e até mesmo dos próprios artistas fixos. Comumente, a composição de artistas varia muito, mas, em geral, temos 2 ou 3 artistas do baile, 1 ou 2 guitarristas, 1 ou 2 cantaores e um bailaor convidado. Chamamos a esta composição de quadro flamenco.
Embora não disponha de cenários diferenciais ou dos efeitos especiais do teatro, a maioria dos tablados hoje em dia tem uma pequena iluminação de show, e contam com uma estética singular na disposição dos artistas onde os mesmos ficam no fundo do palco, em suas cadeiras ou em pé, e os bailaores ocupam a área central quando entram para bailar.
Sendo um ambiente, mas tornando-se uma referência específica de um determinado estilo de show, uma das principais características dos shows de tablado é a ausência de ensaio. Devido à rotatividade, os artistas muitas vezes não sabem com quem irão trabalhar naquele dia. Antes do início do show, marcam verbalmente a estrutura geral do seu baile (quantidade de letras e ordem do baile) com os músicos e se encontram no cenário.
Vocês devem estar se perguntando:
– Como funciona sem ensaio e ao vivo?
Através da linguagem flamenca.
A reposta é simples, mas por detrás dessa simplicidade tem um mundo de conhecimento. A dança flamenca possui comunicação ao vivo e entender esta comunicação é como entender a parte gramatical inerente à arte flamenca.
Existem diversos códigos de baile (determinados movimentos não-verbais que acontecem em lugares pré-determinados, inerentes à comunicação do corpo com a música) que permitem “avisar, indicar ou dialogar” sobre a forma de cada uma das partes e também sobre as “costuras” entre uma parte e outra.
A estrutura do cante também varia, dialogando com o bailarino em momentos pré-determinados, e a guitarra vai dando tonalidades e matizes diferentes, como instrumento de acompanhamento desta “conversa”, também podendo abrir diálogos em certos momentos, onde há predominância deste elemento.
São nestes momentos de diálogo que o flamenco se ilumina com momentos de autêntico improviso, sensibilidade e troca entre os artistas. O inesperado surge, o encontro entre a música e o baile vibra, e a naturalidade da arte faz tudo parecer fácil.
Já disse Mario Maya, bailaor e coreógrafo: “Flamenco não é força bruta, mas sensibilidade; não é virtuosismo fácil, mas graça inesperada. O difícil da arte é fazer com que pareça fácil, inexplicável … e indefinível” (Mario Maya).
Se você quiser saber mais sobre o flamenco e seus diferentes ambientes, confira a nossa página de artigos e siga conosco para acompanhar as novas publicações aqui no site da Casa em Si.
Nesta sequência de artigos onde falo sobre os ambientes por onde o flamenco circula, começaremos pelos teatros, um dos ambientes tidos como consagrados para a dança, a música e o flamenco, juntamente com os anfiteatros e os grandes festivais onde estreiam e circulam o que chamamos de obras ou espetáculos flamencos.
Quando o flamenco acontece num contexto de preparação e montagem, ele entra no mundo das artes cênicas, preservando suas características de linguagem de música e dança indivisíveis, já que o próprio bailarino é um percussionista e já que a dança e música acontecem ao vivo.
ARTES CÊNICAS
Arte Cênica é o conjunto de preceitos para o estudo e a prática da representação e a dramatização, seja no teatro, na dança, na música, ou em qualquer ambiente de manifestações artísticas (circo, ópera, etc). É uma forma de arte apresentada em um palco , lugar destinado aos artistas, onde acontece uma apresentação com um segundo espaço para a platéia onde ficam os seus espectadores. Assim, esta forma de arte pode ser feita onde possam ser concebidos estes dois espaços: palco e platéia.
Quando as artes cênicas vão para o ambiente do teatro, contam com diversos recursos, como veremos a seguir. No caso do flamenco, ganham o nome de obras flamencas ou espetáculos flamencos. Em geral, estes espetáculos são previamente construídos para se destinarem à este ambiente como um espaço específico de apresentação que difere dos demais pelas suas caraterísticas.
Mas, quais seriam essas características?
O TEATRO COMO AMBIENTE FLAMENCO
Estas obras são executadas por artistas profissionais, com um sentido de começo, meio e fim, cujo contexto é enriquecido pelo ambiente do teatro, que dispõe de vários recursos como luzes, gravações, efeitos especiais, cenários, figurinos e um roteiro com amarrações entre números que seguem um contexto ou que contam uma história (ou várias pequenas histórias, dependendo do caso). Por este motivo, os espetáculos exigem um desenvolvimento prévio em várias áreas e uma equipe maior na pré-produção e produção, contando com equipe técnica, além de artística, para desenvolver o espetáculo como um todo.
Como estes espetáculos são montados, há uma diversidade de papéis e de trabalhos por trás da obra que vemos ao vivo. Há um elenco, coreógrafos, arranjadores, diretores, produtores, técnicos e compositores que cuidarão de montagens coreográficas, montagens musicais, montagens cênicas, costuras entre as cenas, mudança de cenários, criação dos mapas de palco, luz e som construídos previamente para que funcionem como um conjunto.
Diferentemente do Ballet Clássico que tem seus ballets de repertório constituídos, onde diferem os intérpretes e se mantém a coreografia, o figurino, as cenas, a música, etc, o flamenco apresenta alguns títulos de obras consagradas como Carmem e a Casa de Bernarda Alba que costumam ser remontadas por diferentes artistas fazendo com que a mesma história tenha muitas interpretações.
Embora as histórias sejam clássicas, possivelmente a maioria das obras flamencas sejam de alguma forma autorais por imprimirem a visão particular do(s) artista(s) que faz a montagem.
É importante não confundir as obras flamencas com os espetáculos de final de ano, onde alunos que praticam flamenco junto com as suas atividades comuns se apresentam. Estas apresentações são espetáculos por se apresentarem no espaço teatral e utilizarem os recursos do mesmo, mas são diferentes dos espetáculos profissionais, cujo elenco tem formação profissional e a arte como sua profissão, tendo esta atividade como sustento de vida através das apresentações, dos patrocínios e prêmios.
Embora o flamenco seja uma forma de arte cênica não verbal, a dança e a música caminham juntos ao vivo, e podemos encontrar com certa frequência a dança teatro, principalmente nas obras flamencas, trazendo a bagagem e atribuições do próprio teatro como linguagem de arte somadas à dança.
A DANÇA TEATRO
O conceito de “Dança Teatro” surgiu na Alemanha, no Folkwang Tanz-Studio, criado por Kurt Jooss no final da década de 20 e ganhou notoriedade a partir da década de 70, tendo na figura da coreógrafa alemã Pina Bausch seu principal expoente. Outro nome importante foi o de Rudolf Van Laban – considerado o “pai” da dança-teatro. Dança teatro combina: dança, canto, diálogos, uso de personagens, cenários e figurinos;
Um exemplo marcante e atemporal de dança teatro é a obra Carmen, trazida algumas vezes para o Brasil pela companhia de Antonio Gades, que fez turnê por cinco capitais brasileiras em 2019.
Boa parte das obras e espetáculos flamencos espanhóis tem sua estréia nos festivais de interesse como o Festival de Jerez, a Bienal de Sevilha e a Suma Flamenca de Madrid.
ESPETÁCULOS FLAMENCOS BRASILEIROS
No Brasil, algumas companhias e grupos apresentaram importantes espetáculos no decorrer dos últimos 40 anos, muitas vezes produzindo por sua própria conta. Porém é importante ressaltar que com a pandemia e a aprovação do auxílio da Lei Aldir Blanc, o número de espetáculos cresceu num prazo de tempo histórico para a arte em geral. Numa temporada impeditiva para o presencial, muitos espetáculos e obras foram selecionados, elaborados e apresentados com transmissão online ou gravados para apresentação digital entre 2020 e 2021.
Com essa produção de espetáculos na pandemia brasileira entendemos (através de números e estatísticas) que somente a soma da regulamentação das artes com as leis de incentivo, permitem que os artistas possam produzir arte e efetivamente entrega-las ao público, utilizando a verba da cultura ao que ela realmente se destina: viabilizar arte acessível para todos.
Muitos brasileiros nunca entraram num teatro e boa parte, senão a maioria, não frequenta teatros. Quantos espetáculos flamencos foram vistos e quantos poderiam ser vistos por centenas de pessoas através das políticas culturais?
Há muito flamenco por descobrir, ver e ouvir e encerro este artigo lembrando que: – Onde há paz, há cultura e onde há cultura, há paz (Nicholas Roerich).
Impossível falar de flamenco sem falar de seu berço pois, nascido e criado na Espanha, carrega uma bagagem cultural de representatividade mundial que, aos poucos, conquistou e atravessou fronteiras para ser uma arte feita no mundo.
Flamenco não é uma fantasia para vestir, é um mundo particular para se viver.
Cylla Alonso
O flamenco já foi uma arte folclórica que consiste num conjunto de costumes e manifestações artísticas em geral, preservados por um povo (ou grupo populacional) por meio da tradição oral, porém seu desenvolvimento ao longo dos anos consolida seu lugar no mundo das artes como uma linguagem artística específica com milhares de profissionais de todas as áreas que esta arte engloba, e milhares de escolas, cursos, obras, companhias de dança, formação específica e materiais de pesquisas em todo o mundo.
Graças a essa trajetória evolutiva, em 16 de novembro de 2010, o flamenco foi incluído como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO e todos os anos uma infinidade de atividades relacionadas a ele acontecem nesta data como celebração.
Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade é uma distinção criada em 1997 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura para a proteção e o reconhecimento de expressões culturais, saberes, formas de expressão, músicas, danças e costumes.
Com um crescimento exponencial nos últimos 40 anos, o flamenco se modificou e evoluiu muito durante este período. Gosto muito da frase (dita numa conversa informal que talvez ele nem se lembre) do bailarino, professor e coreógrafo Javier Latorre com quem tive a honra de conviver artisticamente no Vivência Flamenca (Brasil 2007) e no Festival da Guitarra de Córdoba (Espanha 2008) que dizia: – com a evolução técnica nunca se viu tantos bailaores e bailaoras tão bons ao mesmo tempo.
Com acesso às aulas, técnicas, formações, viagens e intercâmbios flamencos (e não flamencos), o flamenco vive hoje em constante evolução alcançando mais aperfeiçoamento na dança, na guitarra, na percussão e no cante (canto), tornando-se uma arte cada vez mais acessível em qualquer parte do mundo.
O Flamenco evolui em todas partes e no seu tempo, ultrapassando as diferentes barreiras encontradas em cada país ou região, contando com o empenho dos artistas profissionais e dos bons professores de países diferentes que, além de passos, músicas e melodias, oferecem avanços e soluções nesta arte através de resultados de estudos e pesquisas sérias que tornam esta arte possível fora da convivência cotidiana vivida nos ambientes do berço espanhol.
Feito incialmente por imigrantes no Brasil, o Flamenco cultivou as festas espanholas num primeiro momento, mas você ficaria surpreso com o crescimento desta arte no Brasil ao presenciar na atualidade o flamenco em cada um dos seus ambientes, onde há festa mas há sentimentos antagônicos que se encontram e se misturam nas interpretações profundas dos artistas flamencos nacionais.
Em 2021, em comemoração à esta data tão significativa, celebrando o próprio flamenco sem fronteiras e os onze anos de reconhecimento como Patrimônio Cultural da Humanidade, a Casa em Si celebra o mês inteiro de novembro e, entre suas atividades especiais, lança uma série de artigos para você conhecer mais sobre o flamenco, sobre os ambientes artísticos desta linguagem e, também, sobre o crescimento desta arte, também feita no Brasil e por brasileiros.
Quem já estudou ou leu algo sobre flamenco conhece a cartilha sempre proclamada ao falar sobre o assunto: “El arte flamenco se constituye de tres pilares: cante, baile y toque (canto, dança e toque do violão)”. Em filmes e documentários espanhóis sobre o flamenco sendo praticado desde o berço nas famílias “gitanas”(ciganas), em particular na região sul da Espanha, na Andalucía, vemos como as crianças são incentivadas desde cedo ao cante e ao baile, sem distinção de sexo ou idade. Nas praças, em volta da mesa de jantar com a família reunida, nas celebrações de casamentos e aniversários, nos bares, inclusive nas missas evangélicas de domingo, crianças, adultos e idosos pertencentes a este universo praticam esta Arte diariamente, com a mesma frequência e naturalidade com que bebemos água.
No entanto, quando se trata de quem vai tocar o violão, o que vemos é uma predominância e domínio total da figura masculina. Claramente, não vemos que as meninas sejam incentivadas ou motivadas a tocar a guitarra (violão) flamenca como são os meninos. Mas, como tudo na vida, a evolução e mudança desse panorama é inevitável, por mais que caminhe a passos muito lentos, mas sempre adiante.
Sim, o flamenco começa a respirar novos ares! De tempos em tempos isso acontece. Há 20 anos ensinando guitarra flamenca, pela primeira vez tenho 50% de alunos do sexo feminino e 50% masculino. Talvez a explicação esteja no fato de vivermos em um país onde, supostamente, há mais liberdade de expressão para as mulheres, pelo menos em comparação aos demais países latinos. Será? Na Espanha, país onde nasce esta arte, dificilmente vemos guitarristas mulheres atuando, por exemplo, em um quadro flamenco em algum tablao em Madrid. Mas por quê isso ocorre? E como melhorar a representatividade do público feminino nesta área?
Segundo o jornal “El País”, apenas um de cada dez professores de conservatórios de música flamenca é mulher, e em uma sala de 20 alunos, com sorte há uma representante do gênero feminino. Guitarristas como Antonia Jiménez, Laura González, Bettina Flater, Elena San Román y Kati Golenko, entre algumas das que atuam profissionalmente, tiveram que enfrentar en um momento de suas carreiras algum tipo de preconceito, atitude ou comentário machista, inclusive de mulheres.
Uma das formas de compreendermos esta lacuna de uma representação significativa das mulheres na guitarra flamenca, é justamente a educação e os hábitos machistas presentes na cultura espanhola e gitana. O guitarrista, no acompanhamento ao cante, funciona como um fiel escudeiro, que ampara através dos acordes e do ritmo, adornando as pausas da voz com variações e falsetas (micro composições com estrutura determinada de cada palo/estilo) e toques de grande velocidade e destreza, sobretudo ao acompanhar também ao baile. Imagine o cantaor confiando em uma mulher ao violão como sua fiel escudeira que o ampara e abrilhanta sua apresentação com seu acompanhamento firme e preciso, cantando muitas vezes letras extremamente machistas, onde se fala da mulher que o abandonou, desprezou ou traiu… é possível?
A partir do momento em que se encara a música flamenca enquanto conteúdo didático a ser ensinado como técnica, conhecimento e partir de um método, cai por terra toda e qualquer argumentação machista sobre “força” no toque, que supostamente as mulheres não teriam. Flamenco expressa força, sem dúvida, entre tantas expressões possíveis, mas se executa com técnica, e é justamente o estudo e domínio do instrumento a partir de uma técnica específica que permite uma expressão mais precisa e emocionante, independente de se quem está tocando o instrumento é um homem ou uma mulher. Ou seja, é a partir da utilização do conhecimento como ferramenta de descobertas para superar nossos próprios limites que conseguimos quebrar qualquer barreira imposta sobre homens e mulheres. A técnica é a mesma para todos.
O flamenco é um idioma a ser aprendido, e como tal, não depende de aptidões masculinas ou femininas. A partir da técnica, homens cantam mais agudos, mulheres mais graves. Homens dançam movimentos antes relacionados mais ao sexo oposto, mulheres dançam movimentos e gestos antes considerados mais masculinos. Na guitarra, nas palmas e no cajón, para finalizar, todos usamos os mesmos instrumentos: mãos e cérebro. Façamos todos a nossa parte por um mundo menos desigual, onde o que importe seja apenas as horas dedicadas à absorção desta linguagem chamada Flamenco.
Ah, esse tal de flamenco é matéria para muitas vidas e feliz daquele que escolheu se entregar à ele nessa vida.
Mesmo que a paixão aconteça pelo contato com a força, a beleza e a natureza particular do flamenco, o amor verdadeiro por ele chega quando saímos da superfície e mergulhamos cada vez mais profundamente na sua essência de troca e de possibilidades.
Para quem não o conhece muito, o flamenco reúne a dança, o canto, a guitarra, a percussão do cajón e as palmas como elementos primordiais que trabalham juntos recriando a criação cada vez que essa reunião acontece.
Começamos a aprender uma coreografia, uma música e um toque mas quando nos reunimos com os outros elementos é onde a arte flamenca realmente acontece.
Um código de baile comunica como o baile seguirá, um som a mais do sapateado altera a sequência combinada, um alongamento de cante modifica uma parte do todo (mesmo que coreografada). Um respiro pode ou não ser necessário (e bailaor e cantaor se comunicam sem palavras, ao vivo, para que ambos sigam ou respirem juntos). Um acorde diferente na guitarra pode nos pedir para bailar um pouco mais sobre a melodia. Uma subida de intensidade do corpo impele o cajón a aumentar sua intensidade. A tranquilidade do corpo pode diminuir todo o volume musical que preenchia o espaço. E entre mil possibilidades, entre uma parte e outra, caminhamos juntos para uma grande explosão de sons, movimentos e sentimentos como uma grande gargalhada conjunta ou um potente silêncio profundo numa conversa entre amigos.
Todo esse diálogo se dá sem palavras e, na maioria das vezes, sem combinação prévia. A expressão flamenca acontece no que chamamos no método coreológico flamenco de: pontos de mobilidade, que são momentos específicos onde o corpo, a voz, a harmonia e a percussão não só conversam, mas principalmente mudam o rumo do tom e o conteúdo daquela conversa naquele momento.
A conversa não é aleatória e exige dominar os recursos do seu instrumento, bem como conhecer a interação dos outros elementos. É através da clareza do compasso que nos une e do conhecimento de onde (e como) comunicar dentro dele que essas intervenções acontecem.
Mesmo sem essa consciência, o flamenco segue sendo apaixonante, visceral e de extrema beleza graças às suas características, porém, quando ficamos na superfície estética perdemos a melhor sensação que ele pode nos oferecer que é de pertencimento, integridade, entrega e principalmente, a unidade.
É muita coisa? É sim … mas vale à pena mergulhar.
O preenchimento infinito destes encontros flamencos e os momentos em que a essência dessa arte se incorpora na vida artística de um aluno são indescritíveis.
Sou muito grata àqueles que se propõe a mergulhar comigo e que, através das suas conquistas, partilham comigo momentos de felicidade e união através da arte.
Desde muito antes do começo da pandemia, eu me perguntava se as pessoas realmente sabiam que a dança, a música, enfim, … que as artes são uma profissão. Embora soubesse que há pouca consciência sobre o setor, eu sabia que toda mobilização da área era inevitável e necessária, tornando-se fundamental com a pandemia.
Na Live “Flamenco es trabajo”, (flamenco é trabalho) que aconteceu no canal do América Flamenca no Youtube, pude acompanhar a movimentação que está acontecendo no flamenco, que se move em diferentes países buscando seu espaço próprio nas artes e na área da cultura.
As Lives do Canal do América Flamenca têm trazido fontes diversas, nos mostrando que, além da vida flamenca artística nas Américas, também existem pessoas por detrás das artes que trabalham para produzir diálogo, escuta e conscientização a partir do compartilhamento de informações.
Produzida por Alejandra Soto e Thais Maya, esta Live do América Flamenca alimentou ainda mais no meu comprometimento com o projeto coletivo (#dançaessencial) ao ouvir os relatos dos representantes das associações artísticas (neste caso voltadas ao flamenco) do Chile, Argentina e Espanha. É cada vez mais claro para mim como os artistas têm necessidades fundamentais comuns, e como o setor, fragilizado profissionalmente desde seu berço, ficou mais invisível como profissão, apesar de todo progresso nos últimos anos e das visíveis mobilizações que ocorreram na pandemia.
A jornalista Alejandra Soto pontuou incrivelmente ao fazer uma pergunta aos entrevistados sobre como é importantíssima a ação e organização da Associação União Flamenca Espanha, como uma referência, necessidade, inspiração, ou talvez um marco, para uma nova revisão do papel dos profissionais flamencos em várias partes do mundo.
No caso do flamenco, considerando as necessidades e as características particulares que o diferenciam das outras danças, a busca por uma movimentação comum enquanto área específica de atividade profissional a ser considerada, é notória em todas as partes do mundo. Ouvindo os relatos das associações percebemos claramente como a profissão de artista tem necessidades básicas convergentes, mas que cada área de cada setor tem demandas próprias que devem ser levadas em consideração.
Flamenco é dança, mas também é música e, ao ser categorizado numa área específica (dança ou música) perde a sua essência de ser a soma destas duas áreas. Flamenco, até num solo, é dança coletiva pois interage, coexiste em cena em comunicação AO VIVO com os músicos e vai além dos teatros pela sua natureza diversificada em ambientes mais específicos, como o tablado, a cueva, uma juerga, peñas e salas de cante, que possuem propostas características para cada ambiente, mesmo pertencendo a mesma linguagem.
Faço questão de comentar que todos os relatos foram inspiradores, mas minha admiração pelo artista Arcangel ultrapassou o nível máximo. Concluo que o artista que transborda arte o faz mesmo fora de cena e sua natureza sempre encontra uma maneira de manter uma majestosa beleza, até mesmo quando humanamente exibe suas tristezas.
Foi assim que ouvi a beleza contundente das falas do cantaor flamenco Arcangel, que não escondeu a tristeza sobre os efeitos da pandemia e soube falar com maestria, principalmente sobre a necessidade da mudança humana como um atributo essencial para que as associações se criem, se mantenham, cuidem e protejam seus artistas.
Através de suas ações no Union Flamenca, Arcangel mostra que “dar a cara” por um objetivo comum é falar sobre o que atinge aqueles que não tem visibilidade para alçar a voz. É usar sua voz para que algo seja feito em benefício de toda uma classe de artistas profissionais que precisam de um coletivo que organize e estruture as demandas, a regulamentação, burocracias fiscais, contratuais e condições para que seja possível interceder com seriedade junto aos órgãos governamentais de competência.
Arcangel também falou sobre outras questões delicadas com muita sensibilidade e objetividade. Trouxe à tona a dificuldade em reunir artistas ressaltando a diferença entre a produção artística e o coletivo profissional, frisando que as associações funcionais precisam trabalhar em prol das necessidades comuns, onde os “egos” precisam ser deixados de lado para que algo possa ser feito em benefício de todos. Importantíssimo falar disso, pois os coletivos artísticos não podem começar a mudar o mundo baseando-se em como cada um sente a arte ou se expressa através dela e não crescerão sem estar focados no que é comum ao aspecto profissional de todos.
Apesar de ser reconhecido mundialmente pelo seu cante, não se esqueceu de falar sobre a invisibilidade da arte como profissão, nos lembrando que há algo estrutural na sociedade e nas leis da cultura que precisam ser abordadas e mudadas para que sejamos reconhecidos como trabalhadores dignos.
Sobre este tema, o vídeo exibido pela associação argentina de mulheres trabalhadoras flamencas da Argentina fala muito sobre esse reconhecimento.
Deixo aqui meu “reverence” à Arcangel e à todos que participaram nesta Live, especialmente à produção do América Flamenca.
Ainda que a dança esteja longe de alcançar o espaço, visibilidade e reconhecimento como profissão na sociedade, são ações e conversas como estas que possibilitarão uma revisão sobre a importância dos trabalhadores da dança para o todo o público.
No meio de uma pandemia, seria realmente possível considerar essencial qualquer coisa que vá além do que nos mantém vivos como: respirar, hidratar e alimentar? O equilíbrio e bem-estar físico, mental e emocional estão além das nossas necessidades básicas ou fazem parte delas?
Na história atual que estamos escrevendo (simultaneamente, mas, seguramente, não em conjunto) a Dança ficou em terceiro plano, preterida e sem, ao menos, uma menção específica nas idas e vindas das atividades consideradas nas restrições.
No contexto da dança na pandemia, (separando a área de espetáculos nesta pauta) escolas, estúdios, aulas, professores, alunos e atividades têm obedecido os protocolos dedicados às academias de ginástica e musculação, que pouco (ou quase nada) tem a ver com o trabalho artístico, levando a dança, e tudo deste setor, à uma espécie de invisibilidade profissional e social no que se refere a sua real importância.
Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! (Friedrich Nietzsche).
Falamos nos últimos 14 meses em um aumento considerável de crises de depressão, ganho ou perda excessiva de peso, apatia, ataques de pânico, crises de ansiedade, desmotivação … Estamos nos referindo à saúde mental? Sim. E onde entra a dança? Na saúde geral do indivíduo enquanto atividade que trabalha a melhoria do equilíbrio químico, do prazer, autocuidado, da atividade física, do pertencimento e da ressignificação das experiências atuais através da arte.
A Dança trabalha o corpo desde uma percepção também interna, ocupando-se de mover o corpo (enquanto técnica) fundamentalmente associada aos aspectos da mente e da emoção do indivíduo, liberando e transformando assim o stress emocional, mental e físico de forma completamente diferente da malhação.
Liberadas na dança, a dopamina, serotonina, endorfina são substâncias químicas produzidas pelo cérebro, essenciais para o desempenho de diversas funções físicas e psicológicas, e estão relacionadas às sensações de motivação, alegria, euforia e ao bem-estar geral.
Então a dança é essencial? Sim, porque a dança traz equilíbrio químico, físico, emocional e, principalmente, porque saúde mental não é sobre não sentir coisas ruins, é sobre não deixar que elas te dominem. A dança se faz de dentro para fora.
Até a dança que não rebola tem descido até o chão com as demandas, tratando de se adequar as aulas online, que tem sido ministradas com inúmeras dificuldades por todos os lados. Nem todos tem equipamentos, nem todos tem boas conexões, professores não podem ministrar as aulas na sala de dança quando há fechamentos do comércio, existem conteúdos impossíveis de serem desenvolvidos na casa de muitos professores e dos alunos…
Convenhamos. A dança está dando um show de resiliência e criatividade no seu ambiente interno, cujo trabalho não tem tido alcance para ser exaltado, discutido, nem recompensado com uma possível revisão. O movimento precisa do espaço, o corpo precisa do piso apropriado, o aluno precisa do professor, o passo precisa de liberdade sem pisar no gato ou bater nos móveis, a música precisa estar sincronizada com o corpo sem os atrasos da internet, mas a dança finge que essas demandas não são empecilhos gigantes e segue dançando, porque a dança nos é necessária, porque ela nos organiza, nos equilibra, nos exercita, nos expressa e nos relembra quem somos.
Sem aglomeração e com todos os protocolos de segurança, a dança apenas constata a sua essencialidade e se entristece com sua invisibilidade em um momento em que o mundo precisa urgentemente dançar pela saúde, não pela poesia.
Se a dança não te parece essencial, observe seus amigos que seguiram dançando e os que pararam durante a pandemia. Você notará que todos sofrem os efeitos dos tempos que estamos vivendo mas também verá que o enfrentamento desta situação terá muitas diferenças de um grupo para o outro.
Mais do que nunca, além de uma atividade, a dança é um medicamento preventivo contra a tristeza e a ansiedade que baixam a imunidade e se tornam uma porta aberta para o vírus.
Estreando aqui nos
artigos da Casa em Si, queria trazer um tema bem atual que tem feito parte da
vida das pessoas na busca pela atividade flamenca na pandemia: como escolher as
aulas de flamenco?
Partindo de uma
conversa bem bacana num dos intervalos de aula sobre as referências que nos
levam a buscar o flamenco como atividade, segue a minha primeira reflexão para
as 10 dicas sobre o tema, lembrando sempre que o flamenco é uma linguagem e que
aprender é um processo.
1. NÃO
PROJETE SEU DESEMPENHO FLAMENCO NA ATUAÇÃO DE BAILARINOS PROFISSIONAIS;
É natural nos apaixonarmos por flamenco depois de
ver a atuação daquele artista maravilhoso, mas cuidado para não projetar as
expectativas do seu aprendizado em ver refletida no espelho a imagem e
semelhança daquele artista preferido. O Flamenco é uma expressão artística e,
portanto, é um trabalho para elaborar e depois exteriorizar o que acontece no
nosso interno.
2. OPTE
POR AULAS QUE TE DESAFIEM A DESCOBRIR-SE NESTA ARTE COM AUTOCONHECIMENTO;
Na autodescoberta flamenca, você vai
descobrir sua própria personalidade artística durante o processo de aprendizado
que, para falar a verdade, só começa a dar sinais depois do domínio das
técnicas preliminares.
3. PESQUISE
E EXPERIMENTE VÁRIAS PROPOSTAS DE AULA ATÉ TER A CERTEZA DE QUE ENCONTROU
AQUILO QUE VOCÊ BUSCAVA.
Existem propostas de aula das mais variadas no
Brasil de hoje: Flamenco como atividade física, para fins
terapêuticos, voltado para uma coreografia, como uma linguagem, para
empoderamento, enfim… vários caminhos e escolha aquele que melhor você se
identificar. São muitos caminhos diferentes e
possíveis.
4. ESCOLHA
O MELHOR PERFIL DE AULA PARA VOCÊ
Escolha a trilha que melhor se adequa à sua busca,
lembrando sempre de não cair na frustração, pois é uma linguagem e, como um
idioma, leva tempo e prática para ser fluente e poder criar e expressar seus
próprios contextos. Não desista nas primeiras dificuldades.
5. DÊ
UMA CHANCE ÀS AULAS ONLINE. ELAS PODEM TE SURPREENDER.
Em tempos de pandemia, com vidas online muito
sobrecarregadas, é natural sentir que as aulas online não farão você
progredir da mesma forma que a aula presencial. Porém, isso não é verdade. O
Flamenco online tem suas restrições, pois não podemos sapatear na cabeça do vizinho
de baixo, mas existe um mundo novo para você conhecer. A Arte flamenca possui
uma grande diversidade de estudos sobre um mesmo tema. Existe uma riqueza
profunda naquilo que vai além de passos: a guitarra, a palma, o compasso, o
cante…. Para bailar, temos que ter conhecimentos e diálogos com elementos que
vão muito além do nosso corpo. Ressaltando novamente, existem várias propostas
online muito bacanas. Pesquise, envolva-se e experimente.
6. CONSIDERE
EXPERIMENTAR AULAS INDIVIDUAIS CASO TENHA DIFICULDADE DE HORÁRIOS.
Com um cotidiano bem bagunçado e mudanças de rotina
a todo momento, (seja devido à correria do dia-a-dia ou às mudanças
para atender/adequar aos protocolos de segurança das autoridades) lembre-se que você pode optar por aulas individuais
para tornar possível começar ou seguir com o flamenco neste momento.
7. PEÇA
CONTEÚDOS, PERGUNTE E CONVERSE NAS PÁGINAS PROFISSIONAIS DE FLAMENCO.
Uma das vantagens do mundo virtual é que podemos
interagir com os professores através das páginas profissionais, sites e redes
sociais. Aproveite estas ferramentas online e peça recomendações de material de
pesquisa, tire suas dúvidas e
converse com pessoas que já fazem parte do flamenco nacional.
8. LEMBRE-SE
QUE A ARTE FLAMENCA ACONTECE COM MÚSICA AO VIVO E APOSTE NA DANÇA E NA MÚSICA
ELABORADAS COM APRENDIZADO CONJUNTO.
São muitos os relatos de pânico quando os músicos
aparecem interagindo pela primeira vez com a coreografia. No flamenco, a música
dialoga com a dança todo o tempo num universo ao vivo e único, sujeito a
intervenções e mudanças que podem deixar o aluno em desespero sem uma prévia
convivência e adequação. A melhor maneira de aprender pode ser conviver com a
dança, a guitarra, o cante, as palmas e o cajón como elementos naturais do
flamenco, já que realmente esses elementos funcionarão como um grupo que deve
respirar musicalmente junto com o corpo.
9. BUSQUE
ESPAÇOS HUMANIZADOS PARA SENTIR-SE ACOLHIDO DURANTE A PANDEMIA.
Neste momento de demanda de alta produtividade, ao
escolher suas aulas de flamenco, certifique-se de que há um acolhimento
humanizado além do cumprimento de metas. Nos tempos atuais,
faz-se necessário que nossos círculos e atividades consigam nos abrigar,
garantindo a compreensão das dificuldades que se
refletem no nosso desempenho.
10. NÃO
ESPERE A PANDEMIA PASSAR. COMECE JÁ.
A vida é agora. Não espere a pandemia acabar (pois
sabemos que ainda levará um tempo). Comece com a disponibilidade que tem e use
as ferramentas virtuais a seu favor. Faça o seu melhor sem deixar nenhum plano
ou sonho para depois.
Existe um certo
ranço com a técnica no flamenco. Parece que falar de técnica, e enfatizar a
importância da mesma no aprendizado é sinônimo de “tirar a espontaneidade
da coisa”. No entanto, a prática do flamenco passa a acontecer com
naturalidade justamente quando as técnicas já estão absorvidas mentalmente e
corporalmente, quando não precisamos mais pensar na técnica no momento de
bailar e tocar, e a entrega se torna possível sem a necessidade da
racionalização naquele momento dos movimentos feitos, do compasso e divisões
executados, da estrutura do cante, dos códigos de comunicação. É a técnica a
serviço da arte, permitindo que através dessas ferramentas possamos comunicar e
expressar tudo o que desejamos, sem que fique caricato, sem que pareça imitação
ou mera reprodução de sons e movimentos.
No violão, a mão
direita é a que de fato vai dizer o “como” vai soar o instrumento.
Acordes e escalas não soarão flamencas se a forma de expressá-las não for a
adequada. E tudo interfere no som: o posicionamento do violão na perna, o
ângulo da mão direita nas cordas, a ação dos dedos tanto para buscar a corda
quanto para produzir o som, seja arpejando, razgueando, executando a técnica de
polegar com peso e apoio na corda de baixo, fazendo um picado com a pulsação
correta, e um largo etc. Tudo interfere na sonoridade, e a ausência ou
deficiência dessas ferramentas se fazem notar facilmente. Inclusive a marcação
do pé do guitarrista, ora marcando o tempo da música, ora marcando o acento do
compasso, tem a maneira mais adequada de ser feita. É o conjunto das
informações, e a presença de um professor que faça as correções devidas, que
vai resultar em um aprendizado mais ou menos efetivo.
No baile, o
estudo é mais complexo ainda. Estão a educação do corpo através da consciência
corporal, eixo, encaixes, giros, “braceos”, mãos, distribuição de
peso, mecânica dos pés, gravidade usada a favor do movimento, semi-flexão das
pernas…. Nada é livre! E a educação do ouvido, para entender o que a
guitarra, a palma, o cajón e o cante estão comunicando.Tudo que se faz exige
uma educação, um processo de aprendizagem dos conceitos, dos “por
quês” e “como” de cada coisa, assim como de assimilação e
absorção das informações. Nada acontece da noite para o dia, são semanas,
meses, anos de estudo para cada item mencionado. A falta de conhecimento é o
que faz o aluno se machucar, desenvolver tendinites, assim como não dialogar
claramente com os músicos através dos códigos. A responsabilidade de quem
ensina é tremenda, pois o professor é o responsável por transmitir as
ferramentas que vão permitir que o aluno de fato conheça melhor o seu corpo e
suas limitações, suas características e personalidade.
A técnica é, portanto, a melhor forma de conhecer a si mesmo.
A técnica é,
portanto, a melhor forma de conhecer a si mesmo. Primeiro porque através dela
descobrimos que somos capazes de produzir sons e executar movimentos que nem
imaginávamos ser possíveis. Através dela quebramos as barreiras criadas por nós
mesmos, com auto afirmações depreciativas do tipo: “tenho duas pernas
esquerdas”, “sou surdo”, “sou descoordenado”,
“não tenho ouvido” e um sem fim de pré-conceitos sobre si mesmo,
criados no decorrer da vida. É por isso que as crianças são como esponjas e
absorvem tudo rapidamente, pois não têm a personalidade ainda contaminada por
tantos estigmas.
Primeiro porque através dela descobrimos que somos capazes de produzir sons e executar movimentos que nem imaginávamos ser possíveis. Através dela quebramos as barreiras criadas por nós mesmos, com auto afirmações depreciativas do tipo: “tenho duas pernas esquerdas”, “sou surdo”, “sou descoordenado”, “não tenho ouvido” e um sem fim de pré-conceitos sobre si mesmo, criados no decorrer da vida. É por isso que as crianças são como esponjas e absorvem tudo rapidamente, pois não têm a personalidade ainda contaminada por tantos estigmas.
Não aprendemos técnica para aprender a sentir, mas sim como um meio para poder expressar de fato tudo o que sentimos, com menos limitações e mais segurança.
A técnica existe
para quebrar paradigmas, romper limitações impostas por si mesmos, ou por
julgamentos externos absorvidos durante a vida. Não aprendemos técnica para
aprender a sentir, mas sim como um meio para poder expressar de fato tudo o que
sentimos, com menos limitações e mais segurança. Discursos como “o
flamenco não é só técnica, flamenco é sentimento, é preciso esquecer a técnica
para bailar/tocar”, apenas contribuem para disseminar idéias equivocadas
sobre a verdadeira função de se estudar esta arte, e menospreza a ferramenta
mais importante que permite que TODOS possam aprender corretamente, e não
apenas quem tem o demasiadamente superestimado “talento” ou
“ouvido bom”. O tal “duende” que cada um tem dentro de si,
expressado sem o conhecimento, se converte em uma deturpação, deformação e
desrespeito por esta arte. Uma caricatura do som, do movimento do corpo, uma
reprodução sem consistência, sem se apropriar do que de fato busca expressar.
Menosprezar a
técnica no flamenco em função de fazer o aluno se “sentir feliz”, é
menosprezar a todos que de fato se dedicam a seguir aprendendo, melhorando,
estudando e fazendo aulas para melhorar como artista, como professor e como
alunos eternos que somos todos. A técnica bem trabalhada e assimilada permite
que se baile e se toque flamenco sem ter que pensar nela, mas isso não é
sinônimo de esquecimento, mas sim de conhecimentos absorvidos e digeridos o
suficiente para não ter que “pensar” no que se está fazendo, e sim
apenas reagir aos estímulos sonoros e visuais, e desfrutar como criança!
Ensinar os caminhos possíveis, a consciência do que se está fazendo, não é
sinônimo de limitar o aluno à técnica, mas sim de libertá-lo de suas próprias
crenças e limitações.
Não somos
espanhóis, não somos gitanos, a maioria de nós não vive desde o berço em um
ambiente flamenco. Por isso mesmo, como “estrangeiros” que somos,
precisamos depurar, analisar e entender o máximo possível de informações que
possamos não só para fazer bem, mas também para ensinar e transmitir
corretamente, sem deturpar o que já existe, e usando todo esse conhecimento a
nosso favor, e de um flamenco que é possível de ser compreendido como a
linguagem que é. Sem esquecer que espanhóis e gitanos também se dedicam
exaustivamente aos estudos técnicos antes de subir em um palco, pois ninguém
nasce sabendo. No flamenco somos todos estrangeiros, “impuros” e
miscigenados, pois é uma arte que nasce da fusão e influência de diversas
culturas, e segue em constante transformação.
Técnica é o estudo mecânico do movimento, a consciência motora dos mecanismos que temos em nosso corpo, que reagem ao conjunto de estímulos sonoros e visuais.
Técnica é o estudo
mecânico do movimento, a consciência motora dos mecanismos que temos em nosso
corpo, que reagem ao conjunto de estímulos sonoros e visuais. Por isso precisa
ser trabalhada constantemente, para que em cena possamos apenas reagir e
sentir, agir e provocar, dialogar e expressar. Flamenco é sim uma arte
complexa, mas graças ao estudo da técnica, com método e critério, se torna uma
arte acessível a todos, para quem canta, baila e toca.
Democratizar o ensino é justamente tornar estes conhecimentos acessíveis a todos, independente do sexo, cor ou idade, é não priorizar apenas quem tem “mais facilidade” ou talento, mas sim a todos que de fato quiserem aprender, e permitir que encontrem no processo do aprendizado a própria felicidade, que não reside apenas no palco, no estar em cena, nos aplausos. A arte precisa da técnica para poder seguir sendo transmitida em qualquer época, assim como a técnica precisa da arte para encontrar uma razão de existência. E nós? Nós somos os grandes beneficiados: aprender, entender e fazer. E aqui a ordem dos fatores interfere diretamente no resultado final.