FLAMENCO FUSION

Fusão é o efeito ou ato de fundir, unir ou mistura duas ou mais coisas distintas, onde características de cada uma se interceptem formando algo único como resultado.

“Acho que a música há muitos anos vem quebrando fronteiras e aproximando pessoas de diferentes culturas. (El País)

Fernando Trueba (produtor do disco Lágrimas negras, junto a Javier Limón, de Diego Cigala y Bebo Valdés)

Embora “flamenco fusion” não seja especificamente um ambiente flamenco, é uma expressão que traz um conceito determinado ao ser utilizado, e que difere do flamenco purista, coexistindo como manifestação flamenca.

Para elaborar o Flamenco fusion é necessário entender o chamado “Novo Flamenco” cuja história começa nos anos 70, muito antes da expansão causada pela internet no ano 2000, com a influência de diversos estilos musicais da Europa e dos Estados Unidos no flamenco, iniciando assim os primeiros processos que levariam o flamenco a ser posteriormente chamado de “novo flamenco”.

O produtor José Antonio Pulpón dá o pontapé inicial a este processo convidando o  cantor flamenco Agujetas para colaborar com o grupo de rock andaluz “Smash” dando início a uma fusão inusitada e, principalmente, propondo a união artística entre Paco de Lucía e Camarón de la Isla, com quem gravou nove álbuns entre 1969 e 1977, e que por sua vez deram um impulso ao flamenco que rompeu com o conservadorismo e trouxe o flamenco para outro patamar.

Os imortais Camarón e Paco de Lucia foram artistas únicos que, pela arte, ousadia e escolhas artísticas, reconfiguraram o cante e a guitarra flamenca, respectivamente. 

O primeiro disco de Camarón sem Paco de Lucía, La leyenda del tiempo, lançado em 1979, é até hoje considerado um marco do flamenco, aproximando-o de gêneros como o rock e o jazz.

Este novo flamenco também permitiu que estes músicos se encontrassem e que dentro de duas disciplinas criassem algo novo e maravilhoso. Foi o que aconteceu no encontro dos violões de Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin, cujo resultado fascinante rodou o mundo através dos álbuns: Friday Night in San Francisco (1981), Passion, Grace and Fire (1983), The Guitar Trio (1996).

Paco de Lucía, por sua vez, também inovou e introduziu novos instrumentos, como por exemplo, o cajón peruano, que pelas mãos do percussionista baiano, Rubem Dantas, se firma como elemento do flamenco e posteriormente do mundo da música.

O Grammy Latino de Melhor Álbum de Flamenco foi um prêmio concedido pelo Latin Grammy Awards por álbuns de flamenco de qualidade. O primeiro prêmio foi atribuído a Camarón e Tomatito, no ano 2000 por Paris 1987. Paco de Lucía ganhou postumamente este prêmio e “Álbum do Ano” com seu último álbum Canción Andaluza em 2014, tornando-se o primeiro artista flamenco e álbum a fazê-lo.

Com o novo flamenco despontando e as inúmeras possibilidades de caminhos que ele abriu também para os encontros que geraram as fusões, seria impossível não citar como expoente histórico do flamenco fusion o cantaor Enrique Morente, que foi do purismo à miscigenação com o rock no álbum “Omega” com a banda Lagartixa Nick, lançado em 1996 pela gravadora El Europeo Music e relançado em 2008.

Sob influência dos desbravadores do novo flamenco, Paco de Lucia e Camarón, e as tendências de fusão apresentadas por Enrique Morente, Lebrijano, entre outros, surge uma nova geração de artistas flamencos que renovam o panorama musical espanhol, na época da Movida Madrileña, já nos anos 80.

Artistas muito diferentes despontavam neste cenário da música popular espanhola da época e o selo Novos Medios, considerado como “a Motown Flamenca” e conhecido por apoiar a cena independente espanhola durante os anos 80/90 lançando músicas de algumas das bandas mais emblemáticas. Este selo lançou a coleção Los Jovenes Flamencos, em três volumes dando cara, cor e volume ao que começa efetivamente a ser conhecido por Novo flamenco apresentando uma rama de flamenco fusion com ícones artísticos como a banda Pata Negra, Ketama e o cantor/compositor Ray Heredia.

Talvez auxiliado pelas fusões musicais, mas certamente devido a este novo flamenco, foi possível atingir um público maior e mais jovem, dentro e fora da Espanha.

A cantora Concha Buika, recebeu duas indicações para o  Grammy Latino de 2008, como “Álbum do Ano” e “Melhor Produção” por seu quarto álbum, Niña de Fuego.

Nos dias de hoje, Rosalía, nome indiscutível da cena musical internacional, é o ápice da representatividade das fusões flamencas, fazendo questão de inserí-lo como sua marca registrada em sua discografia.

Com as fusões musicais também nasceram as mais diversificadas fusões na dança que, por sua vez, foram incorporando técnicas de outras danças ao flamenco propriamente dito como, por exemplo, a dança contemporânea.

Numa linha mais tênue, e provavelmente fazendo parte essencialmente do flamenco fusion musical como linha de expressão, a dança flamenca muitas vezes se adequa a músicas fusionadas sem utilizar-se necessariamente das técnicas corporais do outro estilo e nestes casos, apesar de ser considerada fusion, apresenta aspectos puramente flamencos.

Basta ver vídeos antigos e atuais, ou até mesmo ouvir os áudios fazendo uma comparação, para perceber claramente o quanto o flamenco se desenvolveu e se rebuscou.

Como o flamenco certamente seguirá crescendo, os flamencos puristas, modernos e os artistas das fusões seguirão nos presenteando com novos trabalhos, que nos surpreenderão. Aguardamos ansiosos!

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